sábado, 10 de outubro de 2015

Resenha: por Castelo Hanssen

Venho de uma viagem por outras galáxias, onde há outros planetas azuis, envoltos em oxigênio, onde é possível haver vida. Aprendi muita coisa que pode servir de lição para nós, deste combalido planeta do sistema solar.
            Os leitores devem pensar que endoidei de vez. Meio maluco já sou, pois de médico e louco todo mundo tem um pouco. Eu nada tenho de médico, mas em compensação tenho muito de poeta, o que é mais grave. No caso, porém, venho simplesmente da leitura do livro “A Saga de um Andarilho pelas Estrelas”, de Jean Pires de Azevedo Gonçalves, editado pela Multifoco. É uma aventura fantástica, mas ao mesmo tempo realista, pois através da ficção escancara a realidade sobre o nosso planeta, inventando outros planetas parecidos com o nosso, um totalmente destruído, outros extremamente desenvolvidos. Dois futuros possíveis dependendo de criarmos juízo ou não.
            O personagem principal da história não declina seu nome, quer ser chamado simplesmente de “Andarilho das Estrelas”, pois entende que o nome não interessa, o que vale são os fatos. Um dia quis abstrair-se de si mesmo, dessa vidinha terráquea, construiu um foguete, e lá foi, por espaços nunca dantes navegados. Causou furor na Terra quando voltou, ao contar suas histórias.
            Num certo planeta UTP, por exemplo, os habitantes se alimentam de uma substância que não é extraída de nada que tem vida, não precisa destruir nada. O mais importante é que com essa substância eles alimentam tubarões, para que eles deixem em paz os peixes menores. É um planeta totalmente a favor da vida, bem diferente deste nosso, cuja história foi feita de guerras de conquista, muita matança, e, pelo jeito que as coisas estão, não pretende mudar, para nosso azar.
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Aristides Castelo Hanssen é um talentoso escritor de Guarulhos; autodidata, é autor de sete livros publicados. De poesia são Canção pro sol voltar, A flor que Drumond viu nascer no asfalto, Um cego fita o horizonte e Fragmentos de memória. De crômicas, Conserta-se mundos e fundos, e uma peça teatral, em versos, Geremias Gemebundo. Também é fundador do Colégio Brasileiro de Poetas de Mauá, do grupo literário Letraviva de Guarulhos e da Academia Guarulhense de Letras. É presidente honorário da Sociedade Guarulhense de Cultura Artística.


Jean Pires de Azevedo Gonçalves é doutor em Geografia pela Universidade de São Paulo e autor de A saga de um andarilho pelas estrelas (2015).

quinta-feira, 2 de julho de 2015

SONETOS

Sonetos do livro "A saga de um andarilho pelas estrelas"



Andarilho da estrela cintilante
Por onde está sozinho em pensamento,
Fugindo dessa terra de tormento,
Sem paradeiro certo, triste errante?

E procurar o que no firmamento,
Que aqui não encontrou sonho distante
Nenhum outro arrojado viajante?
Volta! Nada se perde com o tempo...

“Felicidade quis, sim, encontrar
Nesse vasto universo, de numerosas,
Infinitas estrelas, não hei de errar!

Mas ilusão desfez-se em nebulosas,
Tão longe descobri tarde demais:
Meu amor deste lugar partiu jamais!”


Num foguete Andarilho da alvorada
Vai voando viajante espacial,
Pássaro reluzente de metal,
Cruza o céu Valentina corajosa.

Adereços de luzes de cristal
Enfeitam minha nave portentosa,
Pioneira a conquistar Lua dourada
Destronando reinado celestial.

E navega altaneira cosmonauta,
Lá de cima olha a Terra solitária,
Trilha por via de estrelas muito alta,

Costurando crateras, a operária,
Na fábrica de utopias estelares.
Pois sonhar é preciso, nestes mares...


Acorda, ó Andarilho, acord’acorda!
Um passarinho lírico pi’assim
O despertador trina trintrintrim
O tempo é carrossel que rodarroda

Sonhos são feitos de pó pirlimpimpim
Vida-é-vivida pelo mundo-afora
Mas a saudade nunca vai s’embora
É um reviver que gir’assinsenfim!

O Sol fabrica só a hora que brilha
E alegria é correr no meio da chuva
Quando vem vento sabor de baunilha.

Chega a noite crescente – sorri a Lua
Volta atômica Mab, fada do sono
Amanhã recomeça o mesmo novo.


Sou Andarilho, vagando na cidade,
Pelas ruas, estou sempre de passagem;
Sigo a Via Láctea atrás de uma miragem:
Encontrei nas Estrelas liberdade.

A minha vida tenho na bagagem
Não conheço o que é necessidade
Nada levo senão muita saudade
Do que deixei pra trás nessa viagem.

À noite a lua ilumina o caminho,
Perseguindo meus passos. E vou e passo;
Nunca sei onde vai dar o meu destino.

Quem sabe, nos afagos de um abraço,
Existe no Universo uma pousada,
Muito longe, no fim desta estrada?


Quem sabe do Andarilho das Estrelas?
Por aqui costumava caminhar,
Imaginando estórias pra contar
Com jeito extravagante de dizê-las.

Pelos campos, sonhava estar no mar,
Na quietude de flores bem vermelhas
Zanzava como fazem as abelhas
E a doce liberdade era o seu lar.

Notícias não se têm faz tanto tempo
Do aventureiro nômade celeste,
Que ia para onde apontava um cata-vento.

Não foi para oeste, norte, sul ou leste
Em que aventura encontra-se afinal?
Dizem que está no espaço sideral...


Assim como náufrago solitário,
Perdido à deriva no Oceano,
O reino de Netuno soberano,
Entre a constelação de Sagitário

E algum ponto no espaço sobre Urano.
Sem rumo, muito além do planetário,
Forasteiro, num mundo imaginário,
Um Andarilho se perde em desengano.

Será uma ilha distante no horizonte
Ou trirreme trazendo esperança?
Argonautas que vêm de muito longe

Oferecer refúgio nessa andança.
Avistar terra firme, tão querida,
E o desejo aportar por toda vida.


Bem de noite, trabalha o Andarilho,
Incansável obreiro: sonhador.
É mestre o solitário agrimensor
No ofício de mensurar o infinito.

Desconhecido o mundo interior,
Desbravado e por ele foi medido.
Na oficina assobia um estribilho,
Mapeando quimeras com rigor.

Na divisa indistinta da paixão,
A fantasia é linha imaginária
Que demarca loucura da razão.

Em terra sem utopias, tu és pária,
Vivendo na fronteira da verdade,
Teimas sempre inventar realidade.


Por onde vai, Andarilho, o seu andar
Que assim nunca termina
A sua sina
De partir, de fugir, e não parar

Por onde vai o caminho da sua vida
De sorrir, de gostar
E não chorar
Que assim nunca entristece árdua lida

Entre emenda e remendos (nada certo):
Viver feliz sem métrica
Nem rima

Sem luz elétrica
E o mundo por um triz...

A vida é um soneto descompleto.

domingo, 7 de junho de 2015

SINOPSE

Utopia pós-moderna, “A saga de um andarilho pelas estrelas” conta a história de um homem que abandona a Terra e viaja pelas estrelas, onde conhece civilizações extraordinárias. Mas o universo guarda infinitas surpresas e alguns planetas podem ser muito perigosos. O enredo é repleto de momentos cômicos e desconcertantes que acabam por inspirar reflexões sobre a vida e a existência. O livro é escrito em prosa em dez capítulos. Oito sonetos também acompanham a narrativa. (Editora Multifoco)

Disponível no site da Livraria Cultura, Livraria da Travessa, Editora Multifoco.



PARTE 1
                                                                            
N
um amplo salão azul, de uma única porta cor de abóbora e nenhuma janela, muitos jornalistas se amontoavam.


- Por favor, conte-nos como foi sua viagem ao espaço?
- Diga-nos como ficou tanto tempo sem comida e água?
- Disseram que você não se alimenta. É verdade?
- E o relógio? Por que você não se separa de um relógio?
- Como foi viajar pelas estrelas?
- Me desculpem, mas eu preciso fazer um apelo à humanidade.
- Apelo? Depois o senhor faz. Responda primeiro às nossas perguntas.
- Eu preciso contar a todos o que eu vi. É muito importante.
- Haverá muito tempo para isso. As autoridades estão preparando para amanhã a ocasião para que você dê uma declaração pública, que será em praça pública e transmitida para todo o mundo. Mas antes nos responda!
- As autoridades, sempre as autoridades! Por que não me deixam falar logo de uma vez! Começo a duvidar de que as autoridades estejam sendo sinceras.
- Você acabou de sair da quarentena. Depois dessa entrevista, você terá sua chance de falar o que você bem entender para a humanidade. Por isso, conte-nos agora como foi sua viagem pelo espaço. Além do mais, tudo o que você disser será publicado e televisionado!
- Você disse tudo o que eu falar será publicado e televisionado?
- Sim. E ao vivo!
- Bom, então eu respondo. O que vocês querem saber?
- Tudo. Tim-tim por tim-tim.
- Então, sou todo ouvidos.
- Desde que voltou ao planeta Terra, você se tornou muito famoso. O que você acha das pessoas que se manifestaram por sua liberdade.
- Eu queria agradecê-las.
- Sim, você é muito popular, pensa em se candidatar a algum cargo político?
- Não, de modo algum!
- Desculpa-me, mas farei uma pergunta um pouco indelicada. Você é mesmo um ser humano?
- Em partes. Depende do que você entende por ser humano. O que é um ser humano?
- Como assim, o que é um ser humano? Um ser humano é um ser... é um ser... é um ser humano! Sei lá, um indivíduo pertencente à nossa espécie... Na verdade, gostaria de saber se você é daqui ou se é um alienígena, essas coisas... Você é da Terra, um terráqueo como nós?
- Tudo indica que sim, até que me provem o contrário. Sou um terráqueo, porque nasci na Terra.
- Qual é o seu nome?
- Por favor, sou apenas o Andarilho das Estrelas.
- Andarilhos das Estrelas?!
- Sim. Sou um andarilho, das estrelas.
- Você não tem nome? (Todos riem).
- Não importa, sou o Andarilho das Estrelas apenas. E isso é tudo o que vocês devem saber sobre mim. O Universo é maior.
- Disso ninguém tem dúvidas. (Risos). Como é então lá em cima, no Universo?
- Lá em cima? O entrevistado fez um gesto de incompreensão, e depois acrescentou: O senhor já viu estas fotos coloridas de nebulosas, galáxias, supernovas etc., tiradas por telescópios espaciais?
- Sim.
- Eu diria que é muito mais maravilhoso.
- É mesmo? E o que você viu de tão maravilhoso, exatamente?
- É difícil dizer o que é mais maravilhoso. Tudo é muito bonito. Para não deixar você sem resposta, eu diria que as imensas cataratas de estrelas cadentes são lindas demais. No entanto, como não mencionar a música que toca entre as estrelas ou os versos do multiverso?... Na verdade, é difícil escolher o mais maravilhoso. Lamento, sua pergunta não pode ser respondida.
- Ainda não entendo qual o problema de falar seu nome? Afinal, todos nós queremos chamar você por seu nome!
- Que importa um nome? Eu continuaria o mesmo independente do nome que tenho. Além disso, a minha vida aqui na Terra, como a da maioria das pessoas, sempre foi tão vulgar e encoberta pelo anonimato das multidões, que meu nome é também indiferente. A diferença é que um dia eu deixei nossa querida Terra para viajar pelo espaço sideral. Então eu me tornei um andarilho, errando pelas estrelas do Universo. Vejam bem, por que vocês jornalistas, ciosos que são, estão me entrevistando? Qual o interesse das emissoras de televisão, que pagam os seus salários, senão fatos? Não é sobre mim que vocês querem saber. É sobre o Universo. Sinceramente, a vida banal de um cidadão comum não vende jornais.
- Antes dessa sua viagem espacial, você já havia viajado muito por outros lugares do mundo?
- Não. Nunca saí de minha cidade.
Todos os jornalistas, que eram centenas, se admiraram com essa resposta.
- Nunca saiu de sua cidade?
- Nunca.
- E por que saiu do planeta?
Essa pergunta provocou risos também.
- Porque eu quis abstrair de mim a minha humanidade, ou melhor, quis me tornar abstrato.
A resposta do Andarilho das Estrelas provocou uma reação de surpresa e incompreensão.
- Me perdoa, mas não entendi o que você quis dizer. Como assim, se tornar abstrato? Isso não faz sentido. Em primeiro lugar, o que você entende por “abstrato”?
- Ora, o sentido que se dá a palavra abstração, isto é, um elemento reduzido, separado, e que é generalizado.
- O quê? Por favor, explique melhor, está muito confuso.
- Significa abstrair de uma abstração...
O embaraço aumentava conforme o Andarilho das Estrelas respondia as questões dos jornalistas ávidos por notícias e não por respostas demasiadamente vagas. Afinal, quem é este Andarilho das Estrelas? Ele esteve onde nunca nenhum outro ser humano sonhou um dia chegar e ainda assim não sabemos nada sobre ele, nem o seu nome. Depois justifica uma viagem sem precedentes históricos e de proporção interplanetária com uma explicação, no mínimo, sem sentido!
 Analisemos mais detidamente a fisionomia desse estranho personagem para ver se descobrimos algum traço notável de sua personalidade. Aparentemente, nada indica algo incomum nele. Porém, se prestarmos bastante atenção em seu olhar... No seu olhar pode se observar alguma coisa do Universo, um pouco do brilho das estrelas, uma substância, talvez, de origem melancólica, o próprio éter, cuja essência infinita é o imponderável.
De fato, nenhum dos jornalistas duvidava de sua jornada no espaço; sobretudo, quando os telescópios detectaram sua presença no limiar do sistema solar em rota direta de colisão com a Terra. Notícia alarmante, que provocou verdadeiro pavor, porque o Andarilho das Estrelas foi inicialmente confundido com um asteroide. Quando, entretanto, os astrônomos declararam que o corpo celeste detectado não era senão um corpo humano, o mundo então respirou aliviado. Na ocasião, inclusive, um cientista saiu de um observatório dançando e pulando tão enlouquecido, que acabou por cair em um bueiro de esgoto que alguém imprudentemente esqueceu aberto. Para sua felicidade, os ferimentos foram leves. Mas passado o susto inicial da confusão com um asteroide, o mundo inteiro se perguntava intrigado como podia um ser humano estar nos limites do sistema solar. As hipóteses se multiplicavam. Alguns questionavam, não sem fundamentos, se o Andarilho das Estrelas não seria antes um extraterrestre. Alarmados, outros anunciaram uma invasão alienígena iminente. E os adeptos das teorias da conspiração afirmavam que o caso expunha provas concretas de um experimento científico realizado com cobaias humanas lançadas ao espaço e desenvolvido por organizações que almejavam dominar o mundo. Logo, sabichões de todos os cantos do planeta se reuniram emergencialmente num congresso internacional onde passaram a discutir e analisar as evidências por dias a fio. Por fim, vieram a publico apresentar suas conclusões. Declaravam que, em primeiro lugar, “o objeto espacial que se localiza nos confins do sistema solar é realmente um ser humano do gênero e da espécie homo sapiens sapiens” e, em segundo lugar, “que ignoravam completamente como um indivíduo da referida espécie havia parado num ambiente inapropriado à vida humana”.
Ao se aproximar o Andarilho das Estrelas da estratosfera terrestre, o resgate não podia causar mais comoção. Maravilhado, o mundo inteiro parou para assisti-lo entrar na Terra como uma estrela cadente, riscando o céu de ponta a ponta num rastro luminoso para, em seguida, descer suavemente no mar. A operação de busca, que se procedeu, assemelhou-se a uma verdadeira mobilização de guerra. Nunca se viu tantos helicópteros, jatos, tanques, navios porta-aviões e tantas outras geringonças juntas rumando para um só lugar. As emissoras de televisão suspenderam toda a programação diária para noticiar integralmente o acontecimento extraordinário. Nos telejornais, os repórteres relatavam o sucedido: “Nesta manhã, o homem que estava no espaço aterrissou sem maiores transtornos no meio do oceano Pacífico e foi resgatado para a terra em segurança”. Outros reportavam a seu estado de saúde: “O homem do espaço passa bem, apesar de visivelmente abatido”. E alguns descreviam sua aparência: “Ele tem barbas longas, cabelos compridos e desgrenhados, roupas puídas e rasgadas... mais parece um náufrago, um náufrago das estrelas”. Notícias como essas se intercalavam ao longo das horas, ininterruptamente, e, no dia seguinte, a humanidade ainda estava de ressaca pelos acontecimentos da véspera. Finalmente, a fisionomia do Andarilho das Estrelas, com expressão assustada e olhos esbugalhados, estampou, numa foto memorável, a primeira página dos grandes jornais do mundo inteiro. 
Neste ínterim, uma agência secreta de algum governo deteve o Andarilho das Estrelas e o transportou para uma dessas bases ainda mais secretas, onde o submeteram a intenso interrogatório. De acordo com informações extraoficiais, o viajante espacial portava consigo apenas uma bagagem de mão, com alguns pertences pessoais, como um livro, um caderno, um espelho, uma lanterna, uma caneta e uma bituca de cigarro, além de uma estranha máquina portátil, construída com uma tecnologia desconhecida, e que foram expostos a testes de radiação. Depois disso, durante dias não se teve notícias dele. E as pessoas movidas, talvez, pela curiosidade, passaram a se interrogar por que o prenderam e não o soltavam. Nas ruas, na linha de produção, nos escritórios, nas escolas, nos botecos, nos restaurantes, nas casernas, enfim, na sala de jantar, todos queriam saber do paradeiro daquele que ocupou por um curto lapso de tempo a atenção do planeta. Mesmo diante de tanta repercussão, a tal agência secreta mostrava-se irredutível à opinião pública e sonegava a menor informação. Entretanto, estava em andamento um fenômeno sociológico inexplicável – do qual será explicitado adiante – que foi decisivo para a libertação condicional do Andarilho das Estrelas. Aliás, decisão bastante ardilosa, pois, diante do silêncio do prisioneiro, a agência secreta poderia obter as informações, por meio da imprensa e de uma declaração pública, desejada pelo próprio Andarilho das Estrelas, que em vão tentavam pela força.
E aqui chegamos ao salão azul, com uma porta cor de abóbora e sem janelas, de onde, como vimos, transcorria a coletiva de imprensa. Quando os jornalistas foram finalmente autorizados a entrevistar o Andarilho das Estrelas, houve um verdadeiro frenesi, semelhante a estas liquidações de começo de ano. Jornalistas, cinegrafistas, fotógrafos e outros profissionais de imprensa corriam freneticamente carregados de uma parafernália de equipamentos, fios, microfones, pelos corredores de acesso ao referido salão. É bem verdade também que o local escolhido para a entrevista era completamente inadequado, pela ausência de ventilação. Mal cabia tanta gente lá dentro, que, devido à superlotação, ficava apertado, apesar de amplo. Muitas discussões tomaram lugar, pois os jornalistas disputavam cadeiras, e, na falta delas, sentavam no chão. Não foram poucas as pessoas que passaram mal, sufocadas. Houve ainda quem foi nocauteado durante o tumulto, provavelmente, por um microfone afoito. Além disso, os jornalistas reclamavam, às vezes, aos gritos, do tratamento concedido à imprensa, alegando que as autoridades agiam intencionalmente com extrema truculência no intuito impedir a livre balbúrdia informativa. Ou seja, denunciavam um flagrante desrespeito à liberdade de expressão. Fato que foi amplamente desmentido pelas mesmas autoridades! Para complicar ainda mais a situação já complicada, um dos jornalistas ouviu, segundo ele próprio, de uma de suas fontes, um funcionário do governo, que o Andarilho das Estrelas não era humano. Informação que surtiu o efeito de um verdadeiro estouro de boiada, tumultuando ainda mais as condições em si caóticas. Lá dentro, todos falavam ao mesmo tempo, e foi muito difícil estabelecer o silêncio no local. Jornalistas foram retirados à força por apresentarem conduta inadequada, de acordo com nota divulgada pela organização da coletiva de imprensa. Outros caíram e foram pisoteados. Alguém desacatou alguma autoridade e foi preso. Quando, na medida do possível, a confusão foi finalmente contida, o Andarilho das Estrelas foi conduzido até o centro de uma mesa coberta por microfones. Quase não se via seu rosto, a essa altura barbeado e com os cabelos raspados, atrás de uma pilha de microfones amontoados. Ao seu lado, sentaram-se os famigerados agentes secretos, todos vestidos de modo idêntico, com terno preto, gravata preta e óculos escuros. Enfim, deram início à entrevista. As primeiras palavras do viajante espacial foram impactantes. Disse ele calmamente: “Bom dia a todos. Eu viajei por todos os rincões deste Universo; travei contato com seres obscuros, muito embora conheci civilizações que fazem da humanidade parecer um formigueiro de formigas desmioladas!” Foi uma algazarra total, os repórteres gritavam: “Conte-nos sobre eles!”; “Eu quero saber!”; “Como eles eram?”, “Se parecem conosco?” etc., etc., etc.
Mas deixemos a coletiva de imprensa por enquanto. Nada se compara ao caos que tomou lugar nas ruas durante o período de “quarentena” e que denominamos de “fenômeno sociológico inexplicável”. Diante do mal-estar causado pelo episódio relatado anteriormente ao parágrafo acima, pessoas que não se conheciam passaram a se reunir em grupos manifestando repúdio à prisão do Andarilho das Estrelas, considerada, por elas, “arbitrária, ilegal e um atentado aos direitos individuais da pessoa humana”, exigindo assim a soltura imediata do prisioneiro. A princípio, era apenas meia dúzia mas, com o passar dos dias e por meio das redes sociais de computadores conectados à internet, tornou-se uma bola de neve. Em pouco tempo, se formou uma grande multidão, munida de cartazes, bandeiras, faixas, a entoar canções de guerra, gritos de ordem, que se espalhou pelas ruas como uma epidemia incontrolável. Assembleias eram organizadas nas ruas, ocasião em que oradores de plantão, sob aplausos intensos, incendiavam os ânimos já bastante exaltados. Anônimos viraram celebridades de um dia para outro e concediam, envaidecidos, entrevistas para a televisão, embora muito poucos expusessem argumentos dignos de nota. Nessa toada, porém, o movimento só crescia e depois de muitos debates, os manifestantes decidiram se agrupar diante das sedes dos principais governos envolvidos com a operação de resgate e lá permaneceram acampados. À medida que o tempo passava, sem o menor sinal de boa vontade das autoridades responsáveis, que fingiam nada acontecer e, por isso, não aceitavam discutir uma saída para o impasse, as circunstâncias se tornaram mais e mais críticas e os protestos, violentos. Mascarados ateavam fogo no que encontravam e jogavam pedras nas forças de segurança, acionadas para conter os excessos e atos de vandalismo. Não foi suficiente, pois estas tiveram de recuar muitas vezes. E assim, os confrontos se repetiram por dias seguidos. De um lado, bombas de gás lacrimogêneo, gás de pimenta, tiros de bala de borracha; e, de outro, paus, pedras, fogo, gritos. Surgiram então os heróis e mártires da repressão. Milagrosamente, apesar da intensidade dos conflitos, ninguém se feriu gravemente.
Por algum mistério, a prisão injustificada do viajante das estrelas serviu de pretexto para aflorar uma grande insatisfação em todos os habitantes do globo terrestre. É bastante provável que aquelas pessoas queriam ouvi-lo e, frustradas com os episódios que se seguiram, sentiram-se afrontadas mais uma vez perante a insolência de uma minoria que toma decisões independentemente da consulta de todos. Porém, não parou por aí. Outros agrupamentos, de pessoas aparentemente indiferentes a demandas relativas à liberdade civil, mas contagiadas pelo calor das passeatas, passaram a caminhar a esmo, arrebanhando outros grupos, que se somavam por onde passavam. De repente, milhares se uniam descontentes com as mazelas do cotidiano e apresentavam uma série de reivindicações contra a carestia, o aumento das passagens de ônibus, a inflação, as péssimas condições da saúde pública etc. Imagens aéreas captavam cenas impressionantes de um mundo de gente avançando como um tsunami em direção das grandes capitais. Um pequeno incidente, definido, talvez, como de segurança nacional ou mundial, transformou-se numa avalanche de revoltas pelo mundo afora. Os governos, surpreendidos, foram obrigados abrir negociações com os líderes dos protestos e deliberaram a libertação do Andarilho das Estrelas e mais a promessa de montarem em praça pública um palco onde aquele poderia emitir suas opiniões a respeito de sua jornada interestelar: o seu “apelo à humanidade”. Enfim, as manifestações foram suspensas. Mas ninguém voltou para casa. Um bater de asas de uma borboleta, e eis um furacão. De fato, e é até estranho, mas quando o Andarilho das Estrelas se chocou na atmosfera terrestre, iluminando o céu, muita gente, secretamente, fez um pedido...
É neste pé em que estávamos antes de explicar os antecedentes da entrevista que está sendo realizada no salão azul, que, como vocês já sabem, tem uma porta cor de abóbora e nenhuma janela. Mas onde havíamos deixado a entrevista mesmo? Ah, sim, no momento em que o Andarilho das Estrelas dizia que queria se tornar uma abstração. Nada mais intrigante, não? Vamos ouvi-lo:
- Como assim, disse um jornalista, não é possível abstrair a humanidade de um ser humano? A menos que você realmente não seja humano. (Risos).
- Em pensamento é possível sim. Não só em pensamento, mas também no mundo real, dos fatos, como se costuma dizer. Somos reduzidos a abstrações diariamente, separados de nós mesmos, através de algo geral que supostamente nos representa. Pode ser uma senha, um número, um registro, uma assinatura, um nome. Tudo no nosso mundo é organizado por noções abstratas e gerais, como o tempo, as normas, os códigos, os prazos, que enchem as nossas cabeças e os papéis nas escrivaninhas. Isto quando não somos apenas estatísticas nos indicadores sociais. Nossa vida inteira é apagada, substituída e representada por uma realidade imaterial mais importante que nossa própria vida! E daí aquilo que parece verdade é dissimulado e falso, porém, efetivo. Então, eu pergunto: o que é ser ser humano ou o que é o humano? Para encurtar a história, eu não sou um ser humano completamente!
- Ah, então você realmente é um ET? Eu sabia!
            - Não, também não sou um ET, porque nasci na Terra e, tecnicamente falando, parceiro, quem nasce na Terra não pode ser um extraterrestre. Vou tentar me fazer entender. Há milhares de anos, os nômades costumavam olhar o céu e sabiam o momento da noite em que caem mais estrelas-cadentes. Também seguiam a rota sinuosa dos planetas e quando a posição de uma constelação significava o dia da partida. Os agricultores, da mesma forma, também conheciam o céu que comunicava a estação do plantio ou da colheita. Ao contrário, hoje, jamais olhamos o céu – poluído, por sinal. Por isso, decidi partir. Queria ver as estrelas de perto, a Lua, os planetas... Então, na verdade, eu me abstraí de minha humanidade abstrata para descobrir se havia alguma coisa real em mim.
- Profundo, mas não entendi nada. (Risos) Você está criticando a modernidade, quer voltar para trás, é isso?
- Não. Na verdade, ir para frente é voltar para trás, descobrir o passado é engendrar o futuro. Por isso, antes de partir, eu sentia uma profunda insatisfação com o mundo do jeito que ele é. Para renunciar totalmente à minha humanidade, eu precisava abdicar totalmente da minha existência no planeta Terra; não da minha vida.
- O que você está querendo nos dizer? Por favor, seja menos evasivo.
- Está bem, preste atenção! O mundo parou para assistir a minha chegada ao planeta Terra, não é? (Eu não esperava tanto, se bem que devo admitir que as pessoas adoram uma novidade). Contudo, quem se preocupa ou muda sua rotina com a notícia de mais uma guerra ou da fome de milhares de seres humanos pelo mundo? Nem parece que todas essas coisas acontecem com nossos vizinhos. Parece mais uma realidade de outro mundo, distante de nós. Tudo é tão banalizado e abstrato. Temos até tribunais para julgar crimes de guerra quando, na verdade, não há guerra que não seja um crime contra a humanidade!
- Não sei se o compreendi. Mas me parece que você é um pacifista.
- Não! Não exatamente. Eu já fui um soldado. Já estive em um campo de batalha.
            - Então você já atirou em alguém?!
- Não de verdade. No mundo em que lutei, as armas não eram letais.
- E quando e como você decidiu ir embora do planeta Terra?
- Como um nômade, eu passava horas à noite olhando o céu, e ficava imaginando – ao andar parado – se numa daquelas estrelinhas não haveria um mundo habitado por criaturas solidárias e que cuidassem melhor de seu planeta. E eu sonhava. E um sonho surgiu na minha frente. Vocês sabem que sonho pode significar duas coisas, não é? Sonho pode ser uma manifestação psíquica inconsciente que ocorre durante o sono. Aqui, sonho é uma ilusão, química. Mas sonho pode ser também um desejo forte, consciente. Aqui, o sonho é uma ilusão diferente, porque pode se realizar. Então, eu vi um sonho chegar ao se tornar real numa viagem intergalática. Não seria fácil, e, a bem dizer, talvez um empreendimento suicida. Passei meses me preparando para partir. Então, uma data foi marcada, no mês de junho, porque o céu fica mais bonito no hemisfério sul. E conforme os dias foram passando e a data se aproximando bem perto de mim, eu fiquei diante de um dilema, pois não podia me despedir de ninguém, senão não me deixariam prosseguir. No dia marcado, eu fiquei triste feliz. Achei que seria bastante conveniente me despedir apenas das coisas e dos animais. Dei um abraço apertado em minha máquina de lavar roupas: “Vou sentir sua falta”, disse-lhe. Depois foi a vez da geladeira: Lágrimas congelantes! E aí fui para o meu quarto e disse adeus para minha cama, meu travesseiro e, confesso, com a condição de vocês não publicarem, para o meu hipopótamo de pelúcia! Também disse tchau para as poltronas, as estantes e o abajur. Em seguida, fui para o jardim e me despedi dos gatos, do cachorro, da galinha e até dos insetos. Enfim, das flores, plantas e árvores. Gostaria, no entanto, que vocês registrassem alguns momentos marcantes: A minha gata Deúda parecia um motorzinho se entrelaçando em minhas pernas, talvez, tentando me convencer a ficar. Ao me deitar na grama, olhei os flocos de nuvens brancas no céu azul e vi minha mão, meu antebraço e braço se ergueram acenando. Também fiz um sinal para um gafanhoto, dizendo: “Soldado, foi um prazer conhecê-lo!” Uma formiga subiu no meu nariz e eu sorri para ela. (Não posso afirmar se ela sorriu para mim, porque não entendo muito de boca de formiga). Um tatu-bolinha gesticulava suas patinhas, que são dezenas – algo que me tocou muito, pela sua veemência. Mas o que mais me partiu o coração foi o meu cachorro Foluke que não tirou seus olhinhos de mim até eu desaparecer totalmente no ar. “Vou sentir saudades, amigão!” gritei lá de cima.
            Tudo isso pode parecer muito bizarro e se alguém me contasse eu juro que não acreditaria... mas se eu não tivesse presenciado todos estes acontecimentos! Eu me lembro de cada detalhe, desde as primeiras notícias nos jornais, à descida do Andarilho das Estrelas, de sua prisão, dos protestos. Fui testemunha, com os olhos de meus próprios pés! E mal posso esperar para assistir seu depoimento na praça da cidade. Antes é preciso esperar a entrevista terminar. Ah, sim, os repórteres, eles ainda fazem perguntas. Não os atrapalhemos!
- Mais uma pergunta!
- Andarilho das Estrelas, como você...
- Diga como você fez...
- E por quê...?
- Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho! Andarilho!...
Neste instante, o Andarilho das Estrelas subitamente parou de falar. Seu olhar atravessara as paredes atrás de suas memórias. Estava longe, muito longe. Ao notarem essa atitude estranha e imprevisível, os jornalistas também se calaram. Uma cena que poderia ser retratada por um pintor de tão estática. O silêncio se arrastava e a situação permaneceu assim por não sei quanto tempo até que os jornalistas incomodados com a falta de informações esboçaram uma reação no sentido de retomarem a carga de perguntas. Não demorou muito para que conversas paralelas, sugerindo interrogação e perplexidade, fossem aos poucos cochichadas no salão. Olhares se encontravam, boquiabertos. Então, um dos jornalistas passou a falar em voz alta, mostrando-se bastante impaciente e, irritado com as condições precárias da coletiva de imprensa, passou a se queixar abertamente dos organizadores. Tal agitação causou certa preocupação aos agentes secretos. Esses se entreolhavam estrategicamente, fazendo sinais táticos, uns para os outros, com cotoveladas significativas e pisadas em toques no pé ou na canela do colega vizinho, indicando, porém, que a situação ainda estava sob controle. Mas diante do burburinho nervoso que se avolumava, um dos agentes secretos, muito provavelmente o comandante, tomou a palavra e solicitou encarecidamente aos repórteres que permanecessem em seus lugares. Em vão. Alguns jornalistas já circulavam livremente pelo salão falando ao telefone celular. Nada, porém, tirava o Andarilho das Estrelas de suas meditações. Por sua vez, os repórteres comentavam ou davam risadas da circunstância um tanto inédita, enquanto fotógrafos tiravam fotos dos mais diversos ângulos. Já os agentes secretos, prevendo que seria impossível segurar um tumulto dentro do salão, passaram a gesticular energicamente os braços, com os quais faziam movimentos variados, ao mesmo tempo em que levantavam os óculos e piscavam os olhos num tipo de código Morse, avisando que chegava o momento de bater em retirada. Tudo indicava problemas à vista. Felizmente, o Andarilho das Estrelas saiu de sua letargia momentânea, arregalou bem os olhos, que se fixaram nos jornalistas, e em seguida ensaiou dizer alguma palavra que não saía. Diante disso, os jornalistas caíram paralisados sobre suas cadeiras como se tivessem sido atingidos pelo olhar petrificante de um górgona.
O que será que está acontecendo?!

(...)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

A GREVE DOS PLANETAS

A GREVE DOS PLANETAS


(ou Da primeira, das duas meditações, acerca da greve sideral no sistema solar)




Autor: Jean Pires de Azevedo Gonçalves

Os célebres acontecimentos aqui narrados referem-se à fantástica greve ocorrida no sistema solar quando da deliberação, por parte dos planetas telúricos, reunidos em assembleia extraordinária, realizada no ano de sete bilhões, trezentos e quarenta milhões, quinhentos mil, oitocentos e dois patinhos na lagoa d.N. (depois da Nebulosa NGC 604), de suspender por tempo indeterminado os movimentos de rotação, translação, nutação e outros movimentozinhos que não têm tanta importância assim.

Para a exata compreensão humana de tão extraordinário acontecimento galático, fez-se necessário, primeiro, um esforço tremendo de transpor as escalas de nossa humilde e insignificante percepção antropocêntrica e atingir a magnânima e incomensurável escala planetária; operação essa que pressupunha a personificação dos planetas em notórios tipos humanos e na demarcação dos referenciais compatíveis ao entendimento, como meta de um projeto tal, enquanto tal. Suponhamos, por exemplo, que eu sou a Terra (“Eu sou a Terra! Eu sou a Terra! La, la, la, la, la!”), você é Vênus e eles, os demais planetas. Tendo-se, assim, estabelecido essa prerrogativa fundamental e, digamos, prosopopéica, podemos iniciar a nossa história:

PERSONAGENS: Terra, Vênus, Marte, Mercúrio, Plutão e Mensageiro das Estrelas.

PRIMEIRO ATO

Na abóbada celestial...

TERRA: Ó camaradas! Camaradas planetas telúricos, aproximem-se, aproximem-se! Há muito um fato me perturba e há milhares de anos vem me tirando o sono. Trata-se da desigualdade manifesta no sistema solar. Vejam, os planetas jovianos são muito maiores do que nós. Perto deles, parecemos bolinhas de gude. E quantas luas eles possuem. Oh, quantas luas! De todos os tipos, crescente, minguante, cheia, nova, tudo ao mesmo tempo, numa única noite. Ora, na minha modesta opinião, isso nos traz graves consequências, como o fato de Júpiter e Saturno presenciarem muito mais eclipses do que nós. E eu gosto de eclipses. Ah, como eu gosto de eclipses! Sou louco por eclipses! Mas como tenho de esperar por um eclipse! O que é injusto e mesmo revoltante! Portanto, eu proponho, a nós, planetas telúricos, que sempre fomos desprezados pelo grande Astro Rei, a paralisação de todas as nossas atividades por tempo indeterminado, contando, obviamente, em anos-luz.

VÊNUS: Terra, você sabe que o Sol, o Grande, não gosta de bagunça no sistema solar.

MARTE: Dalva, não é porque você é toda bonitona assim, a mais brilhante dentre nós, que você pode dissuadir-nos de nossas reivindicações. Comungo de sua opinião, vossa excelência planeta Terra, e aceito a sua moção. Mas eu iria mais longe. Penso que devemos radicalizar ainda mais o nosso movimento e declarar guerra aos jovianos! Guerra! Guerra!

TERRA: Calma, Marte, também não é assim. Vamos fazer uma manifestação pacífica. Sem violência.

MERCÚRIO: Ei, galera, eu não tenho nenhuma lua! Vocês não acham isso no mínimo intrigante?

VÊNUS: Eu também não, Mercúrio. Acho que é normal, acontece.

TERRA: Então, pessoal, faremos uma assembleia imediatamente!

MERCÚRIO: Êba, assembleia! Assembleia!!! Vocês o ouviram? Ele disse assembleia. Isso parece interessante.

VÊNUS: Terra, você reclama de barriga cheia, você é único planeta que tem vida no sistema solar, quiçá, no universo, e ainda se sente insatisfeito!

TERRA: O quê? Você pensa que é fácil aguentar estes bichinhos que ficam incessantemente indo para lá, indo para cá, indo para cá, indo para lá, por todo o seu corpo celeste?! Você não sabe como fazem coceguinhas, quase morro de tanto rir, verdadeira tortura chinesa! O pior é que já fiz de tudo pra acabar com esses parasitas, mas não tem jeito, é uma praga! Ademais, depois que eles inventaram o avião, eu não tenho mais sossego; fica um zumbido agudo e irritante no meu ouvido 24 horas por dia! Não dá pra se concentrar e é impossível contemplar as estrelas e ouvir o silêncio destes apavorantes espaços infinitos.

MERCÚRIO: Planeta não tem ouvido.

MARTE: Cala a boca, Mercúrio!

MERCÚRIO: Planeta tem ouvido?

TERRA: Bom, então, como todos se manifestaram a favor, eu declaro aberta a primeira reunião desta assembleia extraordinária.

VÊNUS: Questão de ordem no caos! Questão de ordem no caos! Alguém quer falar...

PLUTÃO: Olá, pessoal, posso entrar no movimento de vocês? É que desde a 26ª. Reunião da IAU, que eu absolutamente não tenho a mínima ideia do que significa essa sigla, me rebaixaram para a condição de planeta-anão. E isso me deixou muito melindrado.

TERRA: Espere, vou consultar a assembleia. Quem é a favor do planeta-anão... quer dizer, do planeta Plutão participar do nosso movimento, ou melhor, da nossa paralisação?

MERCÚRIO: Eu! Eu! Eu! Eu!

MARTE: Cala boca, Mercúrio! Eu sou a favor, mas com uma condição. Desde que ele não use nenhum banquinho ou escada para assistir as reuniões.

PLUTÃO: Ei! Isso não é justo! Só porque eu sou baixinho?!

MARTE: Você não queria ter dito anão?

PLUTÃO: Sabe, vermelhão, eu realmente não gosto de você!

TERRA: Todos estão de acordo? Sendo assim, fica permitida a entrada do companheiro Plutão em nosso movimento de greve.

MERCÙRIO: Ipi, ipi, hurra! Viva o companheiro Plutão!

VÊNUS: Gente, vamos parar de tanta enrolação e estabelecer um teto para o término da assembleia?

MERCÚRIO: Boa ideia! Não aguento mais estes asteroides batendo na minha cabeça. E este blá, blá, blá todo, que nunca termina e parece não levar a lugar algum...

MARTE: Discordo! “Teto” não é um conceito universal, e, depois que descobriram a teoria da relatividade, tudo é relativo. Portanto, melhor seria se estabelecêssemos um chão para esta assembleia.

VÊNUS: Um chão? Que diferença faz?! Você, Marte, só sabe tumultuar os nossos trabalhos. Não aguento as suas ironias; pior, o seu cinismo, e este seu ar de superioridade! “Chão” é algo que não pode ser estabelecido aqui no espaço. Você não passa de um grande demagogo. Hipócrita!

MARTE: Por favor, não tente manobrar a assembleia, Vênus.

TERRA: Apesar de concordar inteiramente com você, minha querida estrela Dalva, estrelinha da manhã, tenho que dessa vez dar razão ao companheiro Marte. O tempo aqui é infinito, nada acontece, tudo é tão monótono. Pra que pressa? Aliás, o que você vai fazer hoje à noite, depois da aula?

PLUTÃO: Informe! Informe! Eu tenho um informe.

TERRA: Ah, é?! Qual?

PLUTÃO: O companheiro cometa Halley acaba de entrar em greve!

TERRA, VÊNUS, MERCÚRIO e PLUTÃO: Viva! Viva! Viva! Viva!

MERCÚRIO: Ei! Ma’sper’aí! Eu estou esperando há tanto tempo esse tal de cometa Halley aí passar. Quer dizer então que ele não vem? Que chato!

TERRA: Atenção! Eu tenho uma proposta. Proponho uma divisão mais equânime de luas no sistema solar!

TERRA, MARTE, VÊNUS, MERCÚRIO e PLUTÂO: Êêêê! Aprovado! Aprovado! Viva! Viva! Viva! Viva!

MERCÚRIO: Equânime? Por que ele não disse igual?

MARTE: Eu também tenho uma proposta. Que tal decretar a desapropriação dos anéis de Saturno?

TERRA, MARTE, VÊNUS, MERCÚRIO e PLUTÂO: Êêêê! Aprovado! Aprovado! Viva! Viva! Viva! Viva!

VÊNUS: Pessoal, posso fazer uma proposta? Mais ventos solares refrescantes durante o verão!

TERRA, MARTE, VÊNUS, MERCÚRIO e PLUTÂO: Êêêê! Aprovado! Aprovado! Viva! Viva! Viva! Viva!

MERCÚRIO: Eu também quero fazer uma proposta. Vamos mudar a forma elíptica da órbita dos planetas para um quadrado? Êêêê...

(Silêncio)

MARTE: Cala boca, Mercúrio!

PLUTÃO: Pessoal, pessoal, posso fazer uma proposta também?

TERRA, MARTE, VÊNUS e MERCÚRIO: NÃO!!!!!!!!!!!

PLATÃO: Obrigado, vocês são tão gentis... Sinto-me tão bem na presença de vocês!

TERRA: Ordem! Ordem! É preciso ter seriedade na condução dos trabalhos. (À parte, para si mesmo: Portanto, vou dar uma de intelectual e falar difícil, além de fazer algumas observações inteligentíssimas... Apesar de serem incompreensíveis, até para mim mesmo, e ninguém entender nada). Vamos lá. Hás de convir-te que, conforme demanda a consulente, a despeito da morosidade do andamento processual, e conforme a sequência de Titius-Bode[1]...

MERCÙRIO: Alguém pode me explicar o que esse cara está falando aí? E quem é esse Tito com o bode? Isso parece grego pra mim. Será que ele não podia falar na nossa língua, o bom e velho planetês?!

MARTE: Chega! Você vive querendo aparecer, Mercúrio! Por que não amarra uma melancia no pescoço e sai orbitando pelo espaço afora? Ou melhor, porque não faz uma dupla de música sertaneja com o planeta-anão, quer dizer, o planeta Plutão?

MERCÚRIO: Boa ideia! “Te dei o sol, te dei o céu pra ganhar seu coração; você é raio de saudade, meteoro da paixão...” Alguém se lembra do resto da letra?

VÊNUS: Ai, que romântico!

TERRA: Chega de salamaleques[2]!

MARTE: Isto mesmo, ó companheiro Terra, façamos desta reunião uma reunião respeitável e ordeira.

TERRA: Vamos votar, companheiros. Quem é a favor da proposta “um” – greve – levante o vulcão esquerdo. (...) Quem é favor da proposta “dois” – não greve – levante o vulcão direito.

MERCÚRIO: Oba! Vamos contar! Vamos contar!

MARTE: Cala boca, Mercúrio!

TERRA: A mesa entende que não é necessário contar. Não houve contraste. A proposta “um” ganhou por aclamação: Greve geral!

(Aplausos)

TERRA, MARTE, VÊNUS, MERCÚRIO e PLUTÂO: Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve! Greve!

- Fim do Primeiro Ato – (Aguardem as novíssimas peripécias dos errantes daqui muito em breve nos próximos mil anos-luz)


SEGUNDO ATO

Marte e Terra confabulam pela Via Láctea.

MARTE: Meu caro planeta Terra,
Tu sabes bastante bem
O quanto venero a guerra,
Como dentre vós, ninguém!

Vejo-te sempre hesitante,
Perdido, em pensamento,
Preocupado, bem distante,
Num vendaval de tormento.

Conta-me qual o motivo
Desta tua vã aflição,
Porque eu sempre consigo
Acalmar um coração

TERRA: Eu sei que em nossa Era,
Marte, solução não vem
Do fundo de uma cratera,
Das nuvens do céu ou além.

Nossos amigos viajantes
Deste grande firmamento
Depositaram confiantes
Votos em meu juramento.

Mal sabiam, ó meu amigo,
Que eram bolhas de sabão
Palavras de orador antigo
Acostumado à atenção.

MARTE: A causa é isso, somente,
De tão grande angústia assim?
Há alguém que nunca mente
Neste universo sem fim?

Teu problema é menor,
Disso eu tenho experiência;
Dor de consciência não é pior
Do que os males da existência.

Não te preocupes, portanto,
Remédio não há de faltar
Tenho uma receita e tanto
Cara de pau é fácil de achar.


TERRA: Agradeço humildemente,
És amigo para mim,
Retribuirei enormemente
Um obséquio, outrossim.

Quis ser planeta melhor,
Estudei toda ciência,
De Antares à Ursa-Maior,
Nada firme, só inconsistência!

Sinto alívio no meu pranto,
Já começo a me alegrar.
Psiu! ouço passos em um canto
Alguém vem nos perscrutar...


Entra Vênus.

VÊNUS: Onde vocês dois estavam? Já estava cansada de procurá-los. Nossos companheiros esperam para decidirmos os rumos do nosso movimento.

MARTE: Ué, mas nós não estávamos parados? Eu pensei que havíamos entrado em estado de greve?

VÊNUS: Engraçadinho. O que vocês tramavam aqui sozinhos?

TERRA: (À parte: Vou usar dos meus truques retóricos, pois isso já deu certo uma vez). Veja bem, é preciso ter clareza da situação. Notar-se-ia (à parte: yes, consegui usar uma mesóclise!) notar-se-ia que se analisarmos em profundidade a questão por este ângulo obtuso e estas perspectivas oblíquas, os conceitos aqui empregados referentes à substância etérea e, dessa forma, absolutamente universal e abstrata, tanto na sua particularidade, como na sua singularidade concreta, é de extrema relevância seu conteúdo notável. Neste sentido, e por conta disso, agregando-se toda a otimização possível e enviesada, de acordo com a geometria fractal, enquanto tal, um pontinho, bem pequenininho e saltitante “X”, segue em direção vetorial de um pontinho “Y”, e ao chocar-se com este, o mesmo grita: “Olhe por onde anda, imbecil!”

VÊNUS: Terra, por favor, quer descer do pedestal. Todos nós sabemos que você é uma sumidade em inteligência, mas não é hora para grandes reflexões filosóficas, aliás, um tanto extravagantes. É urgente a tomada de decisões práticas. Os meninos, Mercúrio e Plutão, aguardam vocês dois para novas deliberações.

De repente, os três planetinhas avistam um tatu-bolinha cósmico de cabeça para baixo se esperneando com suas múltiplas patinhas prateadas.

VÊNUS: Vejam, um tatu-bolinha cósmico! Ele não consegue se virar e voltar à posição normal. Vamos ajudá-lo!

MARTE: Não. Deixe-o perecer. Deixe a natureza seguir seu curso natural.

VÊNUS: Não, não vou deixar mesmo!

Vênus vira o tatu-bolinha cósmico que sai em alta velocidade deixando um rastro de luz pela escuridão do céu sem fim.

MARTE: Pronto, Vênus, agora esse tatuzinho vai passar a acreditar em milagres!

VÊNUS: O que vocês dois estão conspirando? Não sei, mas tenho para mim que vocês dois não estão com boas intenções.

TERRA: Claro que não. Quer dizer, claro que não estamos conspirando! Só estamos meditando acerca do que fazer. Por que tanta desconfiança?

VÊNUS: Deixa pra lá. Os meninos e eu estávamos conversando e concluímos que a nossa próxima reivindicação é a completa e sumária destituição do imperador Sol, o Grande, do centro do sistema solar.

TERRA: Não vamos personalizar também. Pensa bem, não adianta trocarmos uma estrela por outra. O que rege o universo são leis imutáveis e, desculpe-me a redundância, universais. Sabe, pensando bem, é melhor deixar tudo como está.

MARTE: Ouça, prezado planeta Terra, se toda esta celeuma for só por causa dos tais satelitezinhos que você mencionou anteriormente, sejamos francos, sinceros, você tem um e eu tenho dois. Eu posso lhe emprestar de vez em quando uma lua e a gente esquece toda esta pendenga que já está dando muita azáfama. O que acha?

VÊNUS: Olha só, Marte, quem te viu e quem te vê, heim? Celeuma, pendenga, azáfama! Qual vai se a próxima? Aldabrão?

MARTE: Alda-o quê?!

TERRA: Mentiroso, Marte. Mentiroso.
VÊNUS: Pois é!

TERRA: Venhamos e convenhamos, Vênus, já se esgotaram todas as cartadas de nossas negociações e ultrapassamos todos os limites do bom senso. Esta paralisação foi longe demais – apesar de não sair do lugar. Se a gente trocar de estrela, outra pior pode tomar o lugar. Esquece tudo isso. Depois a gente conta uma mentirinha para aqueles dois lunáticos e tudo volta a ser como antes.

VÊNUS: Ah, eu sabia que havia algo de podre no vácuo! Por que quando alguém se impõe com gravidade e fala com palavras difíceis alguma coisa falsa como se fosse verdade todos acreditam sem ao menos pestanejar? Mas, afinal, quais são as reais intenções de tamanho demagogo? Atenção, fama, poder? Vocês dois, não sei qual é o pior: o patife descarado ou o bonzinho mascarado. Quer dizer então que, para vocês, nada podemos fazer e que a greve não passou de um showzinho de dois planetinhas, um azul e outro vermelho, ambos metidos a estrela! Fomos usados, não é? Vocês sempre souberam que a greve era uma armação. No fundo, nunca acreditavam em nossa causa; pois tinham certeza, desde o princípio, que apenas obedecemos mecanicamente leis inexoráveis de uma estrutura onipotente e avassaladora. Mas, ainda que assim fosse, camaradas, eu não estou tão convencida disso, e jamais desistiria de lutar por aquilo que acredito, mesmo que o universo inteiro desabasse sobre minha cabeça para me fazer recuar. Se a vida não está boa, não vou cruzar os braços e esperar, resignada, o pior acontecer. Eu vou seguir em frente e tentar mudar, melhorar. Ó Terra, azul, azul celeste, azul marinho, você nos incitou, acendeu a chama de nossas esperanças, despertou-nos de nosso sono apático por meio de falsas promessas, e agora quer nos dissuadir dos nossos ideais e convencer-nos a desistir dos nossos sonhos?! E com que forma desrespeitosa você trata os nossos amigos! Pobres Mercúrio e Plutão! Nunca os vi tão contentes. Quantos planos juntos fizemos! Quantos sonhos juntos sonhamos! Verdadeiro castelo de areia que se desmancha sob as ondas de um mar de falsidade! Nada era constante, apenas sementes plantadas no solo estéril da velha retórica. Sua máscara acaba de cair, companheiro Terra, e eu só consigo enxergar a face dissimulada da traição. Há muito tempo aprendi que quanto mais alguém se autoproclama correto, mais cínica e irresponsável serão as desculpas para justificar suas faltas, que certamente virão. E que a verdade, em se tratando de política, é a mais baixa das categorias do vil engano. Obrigado companheiros pela aula, nem mesmo numa universidade conseguiria melhores professores. Mas o que vou dizer para Plutão e Mercúrio?!

MARTE: Ai, ai, será que ela não entende?! Não adianta nada...

VÊNUS: Ah é? Não adianta nada! Todos sabem, caro Marte, que você passa todo o seu tempo nos bastidores, entretido em projetos belicosos, sempre conjurando, sempre conjurando. Aí sim! Tudo adianta. Adianta tudo! Seus projetos particulares estão sempre à frente dos interesses coletivos. Aí sim, vale a pena lutar, em mais uma guerra suja. Se enxerga, camarada, você não passa de um pedante sem sal nem açúcar.

MARTE: Quanta ingenuidade! (À parte, para si mesmo: Se ao menos eu também não tivesse estes pneuzinhos aqui do lado da minha barriga, eu ia ficar um fofo!).

TERRA: Não deprecie a companheira Vênus, Marte. Ela já deu provas e mais provas de grande integridade, de lealdade inabalável à causa e de enorme inteligência (à parte, para Marte: aliás, cá entre nós, muito maior do que a nossa!).

MARTE: Ora, Terra, não fui eu, mas você quem colocou minhocas na cabeça dela e agora ela se tornou uma incendiária compulsiva. (À parte, para si mesmo: É por isso que eu não gosto destes intelectuais prepotentes, eles inventam mil ideias estapafúrdias que inculcam na cabeça vazia do povo mas quando o circo pega fogo, meu amigo! é sempre assim, enquanto as coisas vão bem, são os primeiros e únicos a colher os louros da glória, porém, quando vão mal, os capitães a abandonar, em primeiro lugar, a tripulação e o navio que afunda).

VÊNUS: Bom, já chega! Cansei-me de vocês dois, velhacos hipócritas! Façam o que bem entenderem. Quanto a mim, vou me juntar novamente aos companheiros Plutão e Mercúrio e continuar a nossa jornada de lutas.

TERRA: Vênus, espera... Bom, eu... pensando bem, devo-lhe desculpas. Aliás, devo desculpas a todos vocês, ao nosso movimento. Eu vou com você.

VÊNUS: E você, Marte?

MARTE: Vou fazer o quê, ficar sozinho aqui, observando estrelas cadentes para o resto de meus dias? Quer saber, vocês têm razão, eu estava tão entediado antes dos acontecimentos inauditos desta greve, e agora até me sinto importante. Eu vou com vocês também. S’imbora, cambada!

Os três se retiram.


TERCEIRO ATO

Todos os planetas insurgentes estão reunidos. Chega o Mensageiro das Estrelas.

MENSAGEIRO DAS ESTRELAS: Infelizmente, amigos, não trago boas notícias. O imperador Sol, o Grande, está muito furioso com a agitação que vocês vêm promovendo contra a ordem reinante no sistema solar. Vossa Majestade perdeu toda a paciência e prepara-se para atacar, com uma protuberância incandescente, que, provavelmente, transpassará, “numa única chicotada”, segundo suas próprias palavras, “todos os baderneiros do universo!”

Retira-se o Mensageiro das estrelas.

MERCÚRIO: E agora, o que faremos?

MARTE: Fiquem tranquilos, companheiros, eu vou alvejar o imperador com meus mísseis secretos de destruição em massa!

TERRA: Poupe o seu tempo. O Sol possui uma massa de 332.946 mt. Os seus mísseis, Marte, virariam massa de pizza nas mãos do imperador Sol, o grande. Além disso, derreteriam antes mesmo de chegar à superfície solar, devido ao forte calor emanado pelas narinas do imperador. É melhor nos rendermos e esperarmos punição exemplar.

VÊNUS: Não mesmo! Será que vocês não percebem que somos nós que tornamos o Sol especial. Se não fosse por nós, ele não passaria de mais uma bola de fogo sem graça, entre trilhares de outras, flutuando por estes fundões do universo. Vamos boicotá-lo, ação direta, camaradas! Basta apenas abdicarmos de sua órbita de influência.

TERRA: (À parte, para si mesmo: Já sabem, não é? Vou usar da minha oratória infalível para convencê-la do contrario). Seja como for, é de inestimável valor a categoria de síntese e o nexo causal engendrados por esta situação dantesca...

MARTE: Menos, Terra. Menos!

TERRA: Desculpem-me, sabem como é difícil largar um vício.

MARTE: Mas, como fugiremos se nós dependemos da energia solar para subsistir? Fora do sistema, vamos congelar!

TERRA: Há uma solução! Sabem aqueles bichinhos a que eu me referi anteriormente, que ficam me fazendo coceguinhas? Eles não são tão ruins assim. Uma espécie deles, chamada ser humano, descobriu que era possível gerar grande energia através da divisão nuclear.

MERCÚRIO: Como assim?

TERRA: Você já ouviu falar em átomos? Aquelas bolinhas bem pequenininhas, que de tão pequenininhas não dá nem pra enxergar, e que compõe toda a matéria do universo? Então, esses tais humanos descobriram que bombardeando uma bolinha dessas contra as outras, ocorre uma reação em cadeia entre elas, gerando energia equivalente às explosões solares.

MERCÚRIO: Incrível. Como pode uma bolinha invisível ter tanta força como uma bolona como o imperador Sol, o grande?

TERRA: Pois é! Só que esses bichinhos humanos, ao mesmo tempo em que são inteligentes, são incrivelmente burros. Você acredita que eles construíram bombas atômicas e jogaram em indivíduos de sua própria espécie, e por pouco quase estiveram a pique de destruir todo o planeta, ou seja, eu! Verdade seja dita, bons tempos aqueles dos dinossauros!

VÊNUS: Que estúpidos estes bichinhos humanos!

TERRA: É mesmo. Apesar disso, eles estão no topo da cadeia alimentar. Mas pra mim, não são mais espertos que uma ameba tresloucada. Em todo caso, nós podemos usar essa energia provisoriamente, em nosso proveito.

MERCÚRIO: Então vamos esperar o imperador Sol dormir e escapar.

VÊNUS: Impossível! O Sol é o dia!

MERCÚRIO: O Sol é o dia?

VÊNUS: Sim. O Sol é dia. Nunca dorme

MERCÚRIO: Puxa vida, não tinha pensado nisso. Então se nós fugirmos, vamos viver numa eterna noite? Ei, eu gosto do dia, do amanhecer, dos passarinhos cantando em minha janela!

TERRA: Não se preocupe, Mercúrio. Olhe à nossa volta, a vertiginosa imensidão do céu. Você consegue contar as estrelas? Todas elas? São infinitas. E todas elas são como o Sol: Sirius, Toliman, Antares e tantas outras. Podemos escolher orbitar em qualquer uma delas. Poderemos escolher os nossos dias. Teremos finalmente autonomia sobre o nosso próprio destino. Podemos, inclusive, conhecer novos planetas e libertá-los de possíveis tiranos. Sim, planetas de todo universo, uni-vos!

MARTE: Então, não vamos perder mais tempo. É agora ou nunca!

PLUTÃO: Pessoal, eu tenho alguns amigos que aqueles idiotas da 26ª. Reunião da IAU também impertinentemente denominaram de planeta-anão. São eles: Ceres, Eris, Makemake, Haumea, UB 315, UB 316 e UB 317. Eles moram comigo, na zona transnetuniana. Quando passarmos lá, posso chamá-los também?

MARTE: Não, Plutão, esta não é a história da Branca de Neve e os sete planetas-anões, quer dizer, Sete Anões!... (...) Brincadeira! Pode chamá-los também.

MERCÚRIO: Gente, alguém pode me dizer o que é aquela coisa brilhante que está saindo do Sol.

VÊNUS: É uma protuberância nuclear!!!!!!

Neste momento, o imperador Sol, o Grande, lança uma labareda de fogo capaz de causar uma hecatombe devastadora de proporções imensuráveis no sistema solar...

VÊNUS: Cuidado!!!!

MARTE: Caramba!!!!

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Silêncio. Alguns instantes depois...

TERRA: Ó de casa, ó de casa? Tem alguém aí? Ninguém responde. Vênus? Mercúrio? Marte? Plutão?

MARTE: Essa passou por pouco...

MERCÚRIO: Alguém anotou a placa daquele caminhão?...

TERRA: Olá, olá! Vocês estão aí? Todos estão bem? Vênus, Plutão? Vocês estão bem?

PLUTÃO: Fora três costelas quebradas, uma perfuração no pulmão, um fêmur fraturado em duas partes, uma prótese dentária que eu engoli e um olho roxo, o resto é simpatia!

VÊNUS: Eu também estou bem. Mas lá vem outra protuberância... Vamos fugir!!!!

Os cinco planetinhas batem em retirada. Ao passarem pelos anéis de Saturno, cai uma tempestade de granizo.

VÊNUS: Olhem, que bonito, está chovendo granizo!

MERCÙRIO: Vamos pegar um pouco de gelo e guardar no congelador?!

TERRA: Façam o que quiserem. Somos livres agora! Nosso lema daqui por diante será: nem pátria nem patrão!

PLUTÃO: Eu serei o novo Sol!

VÊNUS: Não, Plutão, ninguém pode querer ser melhor do que os outros e, sentindo-se assim, achar que pode se apossar, por merecimento, do universo como se fosse um objeto seu. A solidão sem fim, a eternidade e os mistérios guardados em cada uma destas estrelas, nebulosas ou cometa peregrino ensinam-nos como é maravilhosa e rara a existência de cada um de nós e como somos pequenos também. Por isso, todos temos direito ao universo. E ninguém deve subjugar, oprimir e dominar quem quer que seja, por qualquer estigma ou preconceito. Foi por isso que lutamos, contra isso, pela nossa liberdade. E, nesse sentido, somos iguais. Lembra-se de como fomos ridicularizados pelos críticos, estes anônimos fabricantes de verdades, que sempre nos desacreditaram? Quem se importa com eles? Hoje provamos que eles estavam errados, que não passavam de invejosos que jamais tiveram a coragem de ousar, de se arriscar, de viver, e odeiam a todos que assim o fazem, como nós. Não se preocupe agora com o dia de amanhã, hoje somos felizes!

MERCÚRIO: Ei, olha um cartaz!

PLUTÃO: São meus amigos que vão dar uma festa hoje. Vai ter boa música, samba, funk, moda de viola caipira, punk, rock’n’roll e até música clássica, que tinha num disquinho que estava dentro de uma sonda e caiu aqui.

TERRA: Quem vai se apresentar? Alguém pode ler as atrações, por favor. Sou míope e esqueci os meus óculos.

MERCÚRIO: É um tal de... El-vis Pres-ley... Elvis Presley?!!! Mas o Elvis não...

TERRA: Não! Você não assistiu o filme do “Superman”? Lembram-se de quando, no início, alguns vilões, o general Zod, Ursa e Non, foram banidos do planeta Krypton para a zona fantasma, aprisionados dentro de em espelho e lançados ao espaço? Alguém se lembra como eles gritavam? Então, fizeram a mesma coisa com o Elvis. Segundo me contaram, foi o serviço secreto de um time de futebol ou de uma escola de samba, sei lá, alguma coisa assim, chamada EUA, que o prendeu e o arremessou no espaço sideral justamente quando o rei do rock cantava “It’s now or never”.

VÊNUS: Puxa, eu sabia! Eu sempre desconfiei...

MARTE: Galera, vai começar o rock’n’roll!!!!!!

(Música)

“Well, it’s one for the money
Two for the show
Three to get ready
Now go, cat, go
But don’t you step
On my blue suede shoes...”

Neste momento começa um bate-cabeça frenético e de alta insanidade mental que contagiou todos os astros do universo, tendo o Sol se redimido de todas as intransigências e renunciado o seu esclarecido despotismo. Quem daqui da Terra assistiu ao fenômeno jura que foi a coisa mais inesquecível já presenciada em toda eternidade.

Quando numa noite de outono estrelada,
De mil incertezas, de insônia e ansiedade,
Nossa esperança em vão procura amizade,
No vazio da multidão, a Terra desolada.

Será que existe agora uma vida acordada,
Em algum mundo distante, talvez uma cidade;
Perdida numa via de estrelas, e tempestade,
Sonhando ali encontrar companhia, nessa estrada?

Os cinco amigos planetinhas ensinaram
Que lutar por liberdade é sempre o caminho.
E, com perseverança, a vitória alcançaram,

Contra os desmandos de um tirano mesquinho.
E que é possível mudar o mundo, eles provaram,
Ao último Anarquista, que não se sente mais sozinho.


- FIM -



SEGUNDA MEDITAÇÃO FUTEBOLÍSTICA SOBRE A GREVE

Motivos dialéticos que explicam o fato de um indivíduo torcer pelo Corinthians, o Palmeiras, o São Paulo, a Portuguesa de Desportos e, pasmem, o Flamengo, tudo ao mesmo tempo e não necessariamente nessa mesma ordem. “Sou Curintchas, desde piquinininho. Mas uma dúvida silogística depressa se apoderou dos meus pensamentos: Todo curintchano é sofredor; eu, que sou um bom curintchano, não sou sofredor; logo, devo esperar o Curintchas me tornar um sofredor perdendo todo final de campeonato. Mas como resolver, em termos práticos, este corolário lógico? Depois de tanto matutar, eis que urge e surge a solução: Vou torcer também para o porcão! Mas novas questões se colocaram – questões essas, inclusive, de ordem geográfica. Ora, se nasci em São Paulo, devo torcer para o time que leva o nome do estado, que é o time dos pó-de-arroz! Mas, e a Portuguesa? A Portuguesa, eu não sei por quê? Mas, creio eu, que também seria muito razoável e conveniente torcer para a lusa. Já o mengão, é só para aumentar ainda mais a confusão. Algumas questões perpassam por toda essa questão paradoxal. Em primeiro lugar, onde está escrito que eu devo torcer só para um único time? Em segundo lugar, onde está escrito que para ficar contente é preciso que o time vença? E se meu time perder, não posso ficar feliz? Quem ditou isso? Deus é que não foi! Sendo assim, por que devo aceitar regras que alguém que eu não conheço inventou? Não, senhor! Da minha vida cuido eu e faço o que eu bem quiser, não roubei nem matei! Se eu quiser torcer para o meu time perder, vou torcer e pronto! E se meu time perder, vou comemorar até o dia seguinte! E com tanto time para torcer, perdendo ou ganhando, tanto faz, eu sempre estarei feliz. Na verdade, eu torço mesmo é pro juiz... pro juiz apanhar! Juiz ladrão!” (Depoimento anônimo). Mas o que isso tem a ver com a greve?!

Apendicite à Segunda Meditação:
“A partir de hoje, não vou mais ao médico e, sim, ao veterinário. Foi constatado, a partir de exaustiva experiência, tão certa como 1 + 1 = 2, que o atendimento veterinário é muito mais humano do que o realizado por um médico. Basta entrar num hospital e comprovar essa afirmação observando uma consulta médica. O doutor chama o paciente, como um sargento chama um recruta, sequer olha para ele, em poucos segundos lhe prescreve uma receita e grita: ‘O próximo!’ Já o veterinário, não. Este ao ver um pet, se derrete todo. ‘Ai, que fofinho! Qual é o nome dele? Dá a patinha, dá! Quer carinho na barriguinha, quer? Toma um biscoitinho. (...) Tchau, lindinho!’ Os fatos são evidentes por si mesmos e insofismáveis, e diante de tais provas cabais, tomei a resolução, inconteste e irrefragável, de, doravante, tratar minha saúde numa pet shop” (Depoimento anônimo). Doravante, ainda se usa isso? Mas, afinal, o que isso tem a ver com a greve?!





[1] Lei matemática que calcula aproximadamente a distância dos planetas.
[2] Salamaleque: saudação entre turcos.